POSSIVELMENTE MAIS MORTAL: Coronavírus ressurge na África, e médicos acham que o pior está por vir.

No centro de um terrível surto de coronavírus, 242 pacientes ocupam camas enfileiradas sob as altas vigas de aço de uma fábrica da Volkswagen desativada. Os funcionários do enorme hospital de campanha podiam oferecer oxigênio e medicamentos, mas não havia leitos para tratamento intensivo, nem respiradores mecânicos, nem telefones de serviço, e apenas uma médica de plantão em um domingo recente —Jessica Du Preez, em seu segundo ano de prática independente.

Em uma geladeira que parecia uma despensa, atrás de uma porta com a inscrição “BODY HOLD” (algo como “depósito de corpos”), carrinhos continham os cadáveres de três pacientes naquela manhã. Uma casa fúnebre já tinha recolhido outro corpo.


Quando a pandemia começou, as autoridades de saúde pública citaram preocupações sobre as vulnerabilidades da África. Mas seus países de modo geral pareciam em melhor situação que os da Europa ou das Américas, invertendo as expectativas dos cientistas. Agora o coronavírus está novamente ascendente em áreas do continente africano, apresentando uma ameaça nova e possivelmente mais mortal.

Na África do Sul, uma série de novos casos que se espalharam de Port Elizabeth está crescendo de forma exponencial por todo o país, com as mortes aumentando. Oito países, incluindo Nigéria, Uganda e Mali, registraram recentemente os números mais altos de mortos em todo o ano. “A segunda onda chegou”, declarou o médico John N. Nkengasong, chefe dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças da África.

Quando o vírus foi detectado pela primeira vez, muitos países africanos foram considerados especialmente em risco porque tinham sistemas fracos de saúde, laboratórios e vigilância de doenças, e já combatiam outras infecções. Alguns estavam assolados por conflitos armados, limitando o acesso de profissionais de saúde. Em março, Tedros Adhanom Ghebreyesus, o primeiro diretor-geral africano da Organização Mundial de Saúde (OMS), advertiu: “Temos de nos preparar para o pior”.

Mas muitos governos africanos adotaram lockdowns rápidos e severos que —embora financeiramente ruinosos, especialmente para os cidadãos mais pobres— reduziram o ritmo das infecções. Alguns mobilizaram redes comunitárias de trabalhadores de saúde. O CDC África, a OMS e outras agências ajudaram a expandir os testes e trouxeram equipamento de proteção, de tratamento médico e remédios.

Mas essa conta está quase certamente incompleta. Crescem as evidências de que muitos casos foram desprezados, segundo uma análise de novos estudos, visitas a quase uma dúzia de instituições médicas e entrevistas com mais de cem autoridades de saúde pública, cientistas, líderes de governo e provedores médicos no continente.

“É possível e muito provável que o índice de exposição seja muito maior do que o relatado”, disse Nkengasong.

Agora, enquanto combatem novos surtos, os médicos estão convencidos de que as mortes também ficaram sem contar. John Black, único especialista em doenças infecciosas de adultos em Port Elizabeth, disse que ele e outros médicos temiam que muitas pessoas estivessem morrendo em casa.

De fato, uma análise do governo mostrou que houve mais de duas vezes mais mortes do que poderiam ser explicadas pelos casos confirmados na África do Sul. “Não sabemos qual é o número verdadeiro”, disse.

Os cientistas também estão considerando outras explicações para o resultado no continente. Estas variam de infecções assintomáticas ou brandas, mais comuns em jovens —a idade média na África é de apenas 19,7 anos, cerca de metade da dos EUA—, a fatores não comprovados como imunidade preexistente, padrões de mobilidade e clima. Se essas condições ajudaram a proteger contra o vírus antes, perguntam as autoridades, será que o farão de novo agora?

As pessoas estão morrendo em casa. “O vírus agora está matando silenciosamente”, disse Hussein Abdillahi Ali, um médico iniciante no hospital.

A julgar pelas páginas de condolências no Facebook, disse o diretor, a Covid-19 voltou “como uma vingança”.

Folha Uol

Jefferson Lima

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